segunda-feira, junho 20, 2005

Caia na Noite: Capítulo 8

Do alto da noite

Ele a tomou pela mão e a conduziu, cauteloso, pelas ruas. Cumprimentou alegremente as prostitutas encostadas aos carros na rua e um grupo compacto de homens que caminhavam muito juntos. Andaram por um longo tempo. Mas a garota não via ou não compreendia bem os cenários à sua volta; sentia-se tonta, anestesiada. Fora o susto, talvez, a tensão – ou a coisa que Fabiano lhe dera para beber. A cidade parecia feita de luzes enigmáticas e fantasmas de prédios.

Sentia, agora, duas mãos sobre seus ombros. Por entre a brisa que assobiava em seus ouvidos ouviu um sussurro:

– Tá pegando no sono, é? Abra os olhos, Liliana.

E ela os abriu. À sua frente, via o céu cinzento da noite urbana. As luzes e sons vinham de baixo, longínquos. Ela olhou para os próprios pés – um profundo abismo sob eles.

Saltou para trás, quase de um tombo, e foi amparada por Fabiano.

– Onde a gente tá? – perguntou, esbaforida.

– Como, onde? No alto de um prédio. Olha só a Paulista lá embaixo...

– Por que é que viemos aqui, o que você tá... – Interrompeu-se quando viu Marisa do outro lado, sentada perigosamente na mureta que os separava de uma queda fatal. Gostava cada vez menos dela. Marisa estava a par do fato e extraía dele imensa satisfação.

– Que foi? – perguntou, levantando-se devagar, com um sorriso torto. – Para uma coisinha tão ambiciosa e exigente, você tem estado bem assustada nas últimas horas. Como vai sua convicção? Abalada? Ou ainda tem certeza absoluta de que quer ser o que nós somos?

Liliana observou Fabiano de esguelha. Este desviou o olhar; estava claro que não tomaria um partido.

A garota respirou fundo.

– Eu tenho certeza – afirmou.

– Pois eu não tenho. – Marisa começou a caminhar lentamente em torno dela. – Ainda acho que você não tá preparada e não acredito que um dia vai estar. Você não merece o que temos, nem como prêmio, nem como castigo.

– E por que não?

– Porque não compreende.

O sarcasmo torceu a boca de Liliana num feio esgar.

– Você acha mesmo que é melhor do que eu, não é?

– O que eu acho não importa. Estou satisfeita com o que sou. Você, por outro lado, quer ser como eu... Só que ninguém nos escolhe. Nós é que escolhemos alguém quando queremos. Por que você acreditou que tinha o direito de exigir alguma coisa?

Ele me ofereceu.

As duas garotas lançaram olhares reprovadores a Fabiano, que fingia desesperadamente não estar lá.

– Amorzinho. – O tom de Marisa era perigosamente meigo. – Não devia ficar por aí brincando assim com as pessoas. Veja a dor de cabeça que você nos arranjou. Está contente?

– Desculpa, Ma... eu só queria me divertir um pouco.

– Sua praga! Em todo caso, menina, pode esquecer. Não vai rolar.

– Por que não? O que é que você perderia?

– No mínimo, a razão. Teria de ser doida pra te dar algo assim. Você me pergunta por quê. Eu explico. Você não gosta das pessoas, nem do mundo, nem de si mesma. Tudo o que faz demonstra que não tem nenhum senso de auto-preservação, amor-próprio ou mesmo apego à vida. Como é que você sabia que o Fabiano não era um tarado atrás de uma menininha idiota de cair na conversa dele? Como sabia que ele não ia te levar pra estrada, te estuprar e te largar morta no meio do mato?

– Ele não faria isso! – balbuciou Liliana, tentando afetar firmeza.

– Não faria mesmo – assentiu ele, muito tranqüilo. – Você não é o meu tipo. Mas foi muito imprudente pondo fé no que eu disse sem pedir nenhuma prova de que eu falava a verdade, não foi? Neste exato momento, pode estar sendo vítima de uma brincadeira de péssimo gosto só porque eu apareci na hora certa e te disse o que você queria ouvir. Você ouve e vê apenas o que quer, não é mesmo? Sorria para a câmera. ­– Abriu um sorriso idiotizado, apontando para Marisa, enquanto esta recomeçava a falar, atraindo de volta a atenção de Liliana.

– Imagina o estrago que uma coisa como você não iria aprontar de cabeça virada, achando que é a poderosa. Não é assim que as coisas funcionam. Em primeiro lugar, vem o bom-senso, mocinha; eu não daria poder algum a uma pessoa tão convencida, descuidada e mal-informada.

Liliana estacou, boca aberta, voz entalada na garganta, olhos marejados de raiva. Demorou um pouco para se libertar desse estupor. Quando o fez, foi com todo o ódio que era capaz de sentir.

– Vai pro inferno, sua vagabunda, você e esse babaca mentiroso, seus nojentos, arrogantes, filhos da puta!

Ela rosnava e cuspia como uma gata brava ao dizer isso, e ofegava. Os outros, porém, permaneceram impassíveis, até que a voz seca de Marisa sobrepujou o vento que uivava:

– Agora, chega. Fabiano, acaba com ela.

– Não. – Ele estava visivelmente perturbado.

– Que diabo! Eu mesma faço isso.

Liliana viu algo voar na sua direção. Seu grito foi cortado por uma mão na sua garganta. Depois, viu apenas a escuridão.


Na semana que vem, não perca o nono e penúltimo capítulo de Caia na Noite... Imortal, afinal!


 

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